Dédalo e Ícaro
- João Eduardo de Vilhena
- 28 de jan. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 6 de fev. de 2021

Dédalo era um artífice habilíssimo, engenheiro inventivo e admirado por suas criações. Sua especialidade era a forja de instrumentos metálicos. Ferreiro extraordinário, teve Atena por professora nesta arte. No entanto, muito cedo, um sobrinho seu - de nome Talo - já lhe fez sombra criativa, inventando o serrote depois de observar com curiosidade a espinha de um peixe. Havia também inventado o torno de oleiro e o compasso para traçar círculos. Mesmo tão talentoso, tomado pela inveja, Dédalo convidou o sobrinho para um passeio pela Acrópole: do topo da torre do Templo de Atena, Dédalo empurrou o jovem, que morreu com a queda.
Aparentemente, apenas a inveja não seria suficiente para levá-lo ao crime: Dédalo posteriormente argumentou que suspeitava do envolvimento sexual do adolescente com sua própria mãe, Policasta, irmã de Dédalo. De qualquer modo, ato contínuo, depois da queda fatal, Dédalo apressou-se a descer para a base da Acrópole, para esconder o corpo e retirá-lo do local às pressas. Transportando o corpo, quando perguntado pelos transeuntes, respondeu tratar-se de uma serpente morta; no entanto, via-se sangue a manchar o saco. Foi expulso de Atenas por assassinato.
Na Grécia Antiga, ser expulso de sua cidade era algo terrível: sem o lugar em que nasceu, uma pessoa é ninguém. Mesmo assim, famoso por suas criações, Dédalo conseguiu se estabelecer brevemente em outros lugares até chegar a um local especial: a ilha de Creta, em cuja capital - Cnossos - vivia o rei Minos. Dédalo conquistou a confiança de Minos ao projetar e construir o labirinto para abrigar o monstruoso Minotauro, aparentemente um filho do rei que havia nascido com o corpo metade de touro, metade humano, e que se alimentava vorazmente de pessoas se ficasse à solta.
Dédalo viveu em Creta por um bom tempo, desfrutando de uma boa vida, mas o rei Minos descobriu que sua esposa o enganara com a ajuda de Dédalo e mandou prendê-lo, junto a seu filho, Ícaro. Pasífae, esposa de Minos, libertou os dois prisioneiros e os instou a fugir. Sabendo que a frota naval de Creta era poderosa, Dédalo percebeu que não teriam chances de fugir pelo mar; por isso, recolheu por semanas com o filho centenas de penas e plumas das aves da ilha, tecendo uma trama com as maiores e colando as menores umas nas outras com cera de abelha, estruturando em madeira dois pares de asas capazes de fazê-los voar.
Depois de realizar testes em suas asas e nas menores, feitas para Ícaro, Dédalo - com lágrimas nos olhos - falou, sério: “Meu filho, não se afaste de mim! Se voar muito alto, suas asas se aproximarão do Sol e, com o calor, a cera derreterá e você cairá no mar; se, por outro lado, você se aproximar demais das águas salgadas, as plumas se molharão, ficarão pesadas e, da mesma forma, você se afogará!”. Avisos dados, bateu suas asas, flutuando com facilidade na praia em que estavam; o mesmo se deu com Ícaro, e ambos começaram sua fuga.
Camponeses e trabalhadores locais viram a cena e os confundiram com deuses alados. Enquanto passavam por ilhas conhecidas dos navegantes gregos, Dédalo seguia seu plano para fugir do rei cretense. O mesmo, porém, não se podia dizer de Ícaro: maravilhado com sua capacidade de voar, Ícaro dava piruetas pelo ar, e ria, divertido. Em dado momento, bateu as asas para se colocar bem alto no céu: a cera que unira tantas penas até aquele momento, começou a derreter, e suas asas se desmancharam, fazendo-o cair no mar. Pouco tempo depois, ao repetir o gesto de olhar por trás do ombro, para ver se seu filho estava bem, Dédalo não o encontrou. Procurou no entorno, voou em círculos observando todos os pontos à vista e, apenas ao final desta busca é que divisou algumas penas flutuando num ponto do mar, em que também encontrou o corpo sem vida do filho. Levou-o para uma ilha próxima e lá o enterrou, tendo batizado a ilha como Icária, em sua homenagem.
[Giotto di Bondone (1267-1337). - Dédalo, 1334 (?).
Mármore. - Museo dell'Opera de Duomo, Florença, Itália]